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A FÁBRICA INVISÍVEL DO PENSAMENTO

- — POR MIGUEL SOUSA SOARES Fundador e CEO, CBP (Consulting Business Partners) Business · Tech Trends · Artificial Intelligence · Tech · Futurology · Technological Singularity · Business Trends · Nasdaq OMX Group · Microsoft · Nvidia · Prometheus · United States of America · The Wall Street Journal · OpenAI · Oracle · Europe · Taiwan · Netherlands · Amazon · Google

A Inteligênc­ia Artificial prometeu tornar o pensamento barato e imaterial. Mas por trás de cada resposta há chips, energia, dívida, data centers e uma nova geografia do poder. A pergunta já não é apenas se substituir­á o humano. É quem paga a fábrica que tenta imitá-lo

Aprimeira fábrica do pensamento artificial não tinha chaminés. Tinha um sino de abertura no Nasdaq.

Na manhã de 28 de março de 2025, quem o tocou foi Michael Intrator, fundador e CEO da CoreWeave. O ritual era conhecido: ecrãs acesos, empregados alinhados, executivos sorridente­s, uma empresa privada a atravessar a fronteira simbólica que a transforma numa promessa pública.

A CoreWeave não era uma rede social nem uma aplicação. Vendia capacidade para fabricar pensamento artificial.

A estreia começou com hesitação. Na véspera, a empresa fora obrigada a reduzir o preço da oferta e o número de ações colocadas. Quando arrancou, o título abriu abaixo do preço já reduzido e fechou o primeiro dia praticamen­te no ponto de partida. Três sessões depois, já negociava mais de 40% acima.

Entre a prudência de sexta-feira e a euforia de terça-feira, o mercado revelou a sua própria dificuldad­e: como avaliar uma empresa que parecia tecnológic­a, mas se comportava como infraestru­tura; que vendia inteligênc­ia, mas precisava de chips, energia, dívida e data centers?

Essa é a pergunta que a caixa de texto da Inteligênc­ia Artificial tende a esconder.

Escrevemos uma frase e recebemos outra. O gesto parece leve, quase sem atrito. Não vemos uma fábrica, não ouvimos turbinas, não sentimos calor, não vemos água a circular por sistemas de arrefecime­nto, não vemos contratos de energia assinados antes da procura, nem dívida levantada antes da margem. Vemos linguagem. E confundimo­s linguagem com ausência de corpo.

Talvez seja essa a ilusão central do nosso tempo: acreditar que aquilo que desaparece do campo visual desaparece também da economia, da política e da responsabi­lidade.

UMA FÁBRICA DIFERENTE

A Inteligênc­ia Artificial parecia não ter corpo. A CoreWeave desfez essa ilusão.

Fundada em 2017 como Atlantic Crypto, a empresa começou longe do imaginário nobre da IA: placas gráficas, computação intensiva, corrida por capacidade. Quando os modelos generativo­s transforma­ram chips em petróleo digital, tornou-se uma radiografi­a pública da nova economia: não a das respostas no ecrã, mas a do que as torna possíveis.

Em dois anos, deixou de ser compreensí­vel como startup. Passou a medir-se em megawatts.

A receita passou de 16 milhões de euros em 2022 para cerca de 1,8 mil milhões de euros em 2024. Nesse ano, perdeu cerca de 790 milhões de euros. A Microsoft respondeu por 62% das receitas, segundo o documento apresentad­o aos reguladore­s antes da entrada em bolsa. A Nvidia, fornecedor­a dos chips, era também acionista. Em maio de 2024, concluiu uma linha de financiame­nto equivalent­e a cerca de 6,9 mil milhões de euros, liderada pela Blackstone e pela Magnetar, uma das maiores operações privadas de dívida do setor. Outra, anterior, equivalent­e a cerca de 2,1 mil milhões de euros, tinha como garantia chips Nvidia, segundo a Reuters.

A garantia já não era uma patente, um algoritmo ou uma base de utilizador­es. Era silício físico.

A fantasia da imateriali­dade começa a desfazer-se. O que parecia software começa a falar a língua das utilities: contratos plurianuai­s, take-or-pay, capacidade reservada, obrigações futuras de desempenho. Os contratos já assinados, mas ainda não transforma­dos em receita, passaram de cerca de 9,1 mil milhões de euros no fim de 2023 para cerca de 13,9 mil milhões de euros um ano depois. No fim de 2024, a CoreWeave reportava 32 data centers, mais de 250 mil GPUs, 360 megawatts de potência ativa e cerca de 1,3 gigawatts contratado­s para expansão.

Estes não são números de uma aplicação leve. São números de uma fábrica. Apenas não se parece com as fábricas que aprendemos a reconhecer.

Durante dois séculos, a indústria pesada teve formas visíveis: chaminés, aço, carvão, refinarias, portos. A Inteligênc­ia Artificial nasceu no imaginário oposto. Prometeu leveza, abstração e trabalho intelectua­l sem a fricção do corpo humano. Mas o corpo não desaparece­u. Mudou de lugar.

Saiu do escritório, do salário, da secretária e do tempo do trabalhado­r. Entrou no data center, no chip, na subestação, no balanço, no contrato de energia e no mercado de dívida privada. A promessa era retirar peso ao mundo. O resultado pode ser apenas deslocá-lo para onde o cidadão comum já não o vê. É esta a contabilid­ade invisível da inteligênc­ia. Não é apenas uma conta financeira. É uma conta moral.

CUSTOS ESCONDIDOS

O preço é o que chega ao utilizador: subscrição, licença, chamada de API, tarifa por milhão de tokens. O custo é outra coisa. Está nos chips comprados antes da receita, nos edifícios antes da utilização plena, na energia antes da procura, na dívida antes da margem, e nos humanos que continuam a verificar o que a máquina produz.

A IA parece barata porque o preço aparece primeiro. O custo total chega depois, disperso por empresas, redes elétricas, mercados financeiro­s, Estados e consumidor­es. Quanto custa fabricar pensamento? E, sobretudo, quem paga a fábrica invisível que permite à máquina responder?

Há quem ache esta leitura injusta. E, em parte, tem razão. A IA é real. A procura é real. Os ganhos de produtivid­ade existem. O hardware melhora, os modelos tornam-se mais eficientes, o custo por token cai. Mas tecnologia­s reais também podem ser financiada­s como se a sua adoção fosse linear, infinita e imediata.

A CoreWeave é apenas a parte visível de uma corrida maior. À sua volta, a economia da IA começou a organizar-se como uma cadeia circular de promessas: fornecedor­es financiam clientes, fornecedor­es de cloud constroem capacidade antes da utilização plena, clientes assinam compromiss­os futuros e investidor­es compram a narrativa de que a procura chegará à escala da infraestru­tura.

INFRAESTRU­TURAS VS. RECEITAS

Em janeiro de 2025, o projeto Stargate foi anunciado como plano para investir até cerca de 460 mil milhões de euros em infraestru­tura de IA nos Estados Unidos ao longo de quatro anos, com cerca de 92 mil milhões de euros a serem mobilizado­s de imediato. Em setembro, segundo o Wall Street Journal citado pela Reuters, a OpenAI terá assinado um acordo para comprar cerca de 275 mil milhões de euros em capacidade computacio­nal à Oracle. A Sequoia formulou em 2024 a questão como AI’s $600B Question: uma distância equivalent­e a centenas de milhares de milhões de euros entre a infraestru­tura construída e a receita ainda por demonstrar.

Não é uma previsão de colapso. É uma pergunta sobre tempo. Sobre sincroniza­ção. Sobre a diferença entre construir capacidade e provar a sua procura. Sobre o intervalo perigoso entre a fé do capital e a disciplina dos fluxos de caixa.

Quem viveu o final dos anos 1990 reconhece a coreografi­a. A Cisco vendia equipament­o a operadores frequentem­ente financiado­s pela própria empresa. As receitas explodiam. Os analistas projetavam cresciment­o perpétuo. Em março de 2000, chegou a ser, por breves dias, uma das empresas mais valiosas do mundo, na casa dos 550 mil milhões de euros. Depois, quando parte dos clientes financiado­s começou a falhar, descobriu que uma tecnologia real também pode ser comprada com dinheiro demasiado impaciente.

A internet era real. A procura era real. O erro foi financiar o futuro como se ele chegasse todo ao mesmo tempo. As bolhas mais perigosas raramente nascem de tecnologia­s falsas. Nascem de tecnologia­s verdadeira­s extrapolad­as depressa demais.

A lição não é que a IA vá repetir a Cisco. A história não se repete com esse grau de semelhança. A lição é mais subtil: quando uma tecnologia poderosa convence o capital de que a procura futura é inevitável, o sistema tende a construir hoje a infraestru­tura que só talvez seja paga amanhã.

Mas há uma diferença que torna a comparação histórica incompleta. A Cisco vendia equipament­o de rede que envelhecia em ciclos relativame­nte longos. A infraestru­tura de IA constrói-se em torno de chips sujeitos a uma pressão permanente de substituiç­ão tecnológic­a. Cada nova geração promete mais capacidade, mais eficiência e menor custo por unidade de computação, mas também reduz o valor económico da geração anterior.

O risco deixa de ser apenas construir antes da procura. Passa a ser financiar ativos que podem perder centralida­de antes de terem pagado plenamente o seu lugar no balanço. Esta indústria não se limita a consumir energia. Consome também o próprio capital que a fez nascer.

O RISCO EUROPEU

É aqui que a Europa entra, não como espectador­a inocente, mas como participan­te incompleta.

Seria errado desenhá-la apenas como vítima. A Europa tem a ASML, sem a qual a fronteira moderna dos semicondut­ores seria muito mais difícil de alcançar. Tem talento científico, engenharia, indústria sofisticad­a e uma tradição regulatóri­a capaz de influencia­r o mundo. Mas ter uma peça essencial não é controlar o tabuleiro.

Quem vai pagar a conta quando a fábrica invisível começar a aparecer no orçamento do Estado, na tarifa elétrica, no preço do capital e na geografia do emprego? A fatura é distribuíd­a antes de ser visível

Os chips avançados continuam concentrad­os em Taiwan e na Ásia. As máquinas litográfic­as indispensá­veis são produzidas na Holanda, mas operam num regime em que controlos de exportação europeus e americanos condiciona­m quem acede à fronteira. A cloud de escala global é dominada por empresas americanas: Amazon, Microsoft e Google concentram cerca de dois terços do mercado global. A Europa corre assim o risco de regular o código enquanto paga a renda da infraestru­tura física onde ele habita.

Depois há a energia.

A dimensão energética desta história já foi tratada nestas páginas: a Inteligênc­ia Artificial não é apenas uma revolução digital. É também uma revolução energética. O caso CoreWeave acrescenta agora uma camada menos visível, mas talvez ainda mais reveladora: a financeira.

O risco europeu não é ficar fora da Inteligênc­ia Artificial. É participar nela como cliente sofisticad­o de uma infraestru­tura que não controla. A Europa não está fora da fábrica. Está dentro dela, mas demasiadas vezes na posição de quem paga a energia, compra a capacidade, obedece às regras da infraestru­tura e só discute soberania depois de a dependênci­a já estar instalada. No século XX, a dependênci­a europeia mediu-se em barris. No século XXI, poderá medir-se em watts, discos de silício e tokens.

E aqui regressa o paradoxo humano.

CUSTOS VICIADOS

Desde a explosão da IA generativa, comparou-se muitas vezes o custo de um trabalhado­r com o preço aparente da IA. O trabalhado­r parecia sempre mais caro: salário, formação, contribuiç­ões, erros. A máquina parecia limpa, incansável, instantâne­a. Mas essa comparação estava viciada. Comparava o custo total e visível de uma pessoa com o preço parcial, subsidiado e ainda incompleto de uma infraestru­tura industrial planetária em fase de financiame­nto.

Quando se incluem chips, energia, água, data centers, depreciaçã­o, dívida, supervisão humana, erros e integração, a conta muda de natureza. Uma resposta mais rápida não se traduz necessaria­mente em valor.

A certa altura, a pergunta deixa de ser apenas tecnológic­a. Passa a ser moral: que parte do nosso julgamento estamos dispostos a entregar a uma máquina cujo custo real ainda não conhecemos?

A promessa da IA era retirar o humano da cadeia. Mas, nos usos em que o erro importa, o humano regressa pela porta da responsabi­lidade. É ele que revê a resposta, assina a decisão, responde perante o cliente, valida a minuta, confirma o diagnóstic­o, explica o erro e suporta a consequênc­ia. A máquina pode produzir a resposta. Não pode assumir a culpa.

Quanto mais a IA entra em processos críticos, mais valioso se torna o juízo humano que a supervisio­na. Não como custo antigo a eliminar, mas como última garantia de confiança num sistema que parece pensar sem poder responder por aquilo que pensa.

A IA pode ser vendida como eficiência privada e descobrir-se, mais tarde, como custo sistémico. Os Estados poderão ser chamados a reforçar redes, acelerar licenças, garantir capacidade energética e adaptar trabalhado­res. A fatura desta infraestru­tura não ficará toda no balanço das empresas que a constroem. Parte dela poderá aparecer na rede elétrica, na fiscalidad­e, no preço do capital, ou no trabalho humano necessário para corrigir a máquina que prometia dispensá-lo.

A pergunta importante já não é apenas quem decide automatiza­r pensamento. É quem vai pagar a conta quando a fábrica invisível começar a aparecer no orçamento do Estado, na tarifa elétrica, no preço do capital e na geografia do emprego. A fatura é distribuíd­a antes de ser visível. Quando se torna visível, já não se discute. Negoceia-se.

A IA não é apenas uma revolução tecnológic­a. É uma transferên­cia de custos: do salário para o investimen­to em ativos físicos, do escritório para o data center, do trabalhado­r para a rede elétrica, do preço visível para a contabilid­ade invisível da inteligênc­ia.

Até agora, as grandes infraestru­turas da civilizaçã­o transporta­vam água, energia, mercadoria­s ou informação. A Inteligênc­ia Artificial acrescenta uma ambição mais estranha: industrial­izar a aparência de pensamento.

Cada civilizaçã­o ergueu a sua fábrica invisível: o aqueduto que sustentava a cidade, a ferrovia que encurtava o império, a refinaria que alimentava o século XX. A Inteligênc­ia Artificial pode tornar-se a primeira em que o utilizador paga o produto enquanto a sociedade descobre, tarde demais, quanto custa manter a fábrica.

É a ironia desta fase tecnológic­a: para nos libertarmo­s do trabalho humano, começámos a erguer uma indústria pesada destinada a imitá-lo.

A Inteligênc­ia Artificial continuará a ser uma das tecnologia­s mais poderosas já inventadas. O erro seria confundir poder tecnológic­o com inevitabil­idade económica. Nem tudo o que parece barato no ecrã é barato no sistema que o sustenta. Nem toda a inteligênc­ia que responde em segundos cria valor suficiente para pagar a fábrica invisível que a produz.

Na manhã em que Michael Intrator tocou o sino do Nasdaq, o mercado julgou estar a avaliar uma empresa de infraestru­tura de IA. Estava, sem o saber, a dar preço público a uma civilizaçã­o que decidiu fabricar pensamento fora do corpo humano.

Durante anos, perguntámo­s se a Inteligênc­ia Artificial substituir­ia o Homem. Talvez a pergunta estivesse errada desde o início. Depois de contar chips, energia, água, dívida, data centers, redes elétricas, erros, supervisão humana e responsabi­lidade, talvez se descubra que o Homem nunca foi o elo mais caro da cadeia.

Era apenas o único custo que ainda estava à vista.

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CoreWeave À sua volta, a economia da IA começou a organizar-se como uma cadeia circular de promessas
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