Folha de S.Paulo

Filme sobre Antonio Candido é síntese do olhar afetivo de neta que registrou conversas com ele

‘O Avô na Sala de Estar’ tem reminiscên­cias da infância e da juventude conduzidas com uma leveza que não se confunde com superficia­lidade

- Naief Haddad Movies · Virgin Mary · Dilma Rousseff · Sao Paulo · Saint Rita of Cascia · Paris · Santa Rita de Cassia · Nova Friburgo · Pocos de Caldas · Marcelo Machado · Eduardo Escorel · Inezita Barroso

STREAMING O Avô na Sala de Estar ★★★★★ Brasil, 2024. Direção: Fabiana Werneck e Marcelo Machado. Livre. Disponível na plataforma Sesc Digital

Há 15 anos, Maria Clara Vergueiro, uma das netas do crítico literário e professor Antonio Candido, resolveu gravar em vídeo conversas dela com o avô. Foram quatro almoços, além de papos descontraí­dos na sala de um dos nomes de maior projeção da intelectua­lidade brasileira do século 20.

Essas conversas são a essência de “O Avô na Sala de Estar: A Prosa Leve de Antonio Candido”, documentár­io dirigido por Fabiana Werneck e Marcelo Machado. É o segundo filme sobre o autor de “Formação da Literatura Brasileira”, de 1959, e “O Discurso e a Cidade”, de 1993, lançado neste ano.

Em setembro, estreou “Antonio Candido, Anotações Finais”, documentár­io de Eduardo Escorel que compõe um retrato do crítico a partir de escritos deixados por ele em seus últimos anos de vida —ele morreu em 2017, aos 98.

“Anotações Finais” trata da vida familiar, da literatura, da derrocada do governo de Dilma Rousseff e da proximidad­e da morte, entre outros assuntos. “O Avô na Sala de Estar” não evita a política, tema sempre caro a Candido. À mesa no apartament­o nos Jardins, em São Paulo, ele diz ter “temperamen­to conservado­r, atitudes liberais e ideias socialista­s”.

Mas o que prevalece no filme de 45 minutos são reminiscên­cias da infância e da juventude, conduzidas com uma leveza que não se confunde com superficia­lidade.

À vontade com a neta, como se esquecesse de que havia uma câmera diante dele, o professor fala da cultura caipira que o guiou.

Canta “Boi Amarelinho”, que já foi interpreta­da pela dupla Tonico e Tinoco e por Inezita Barroso. Depois salta para “Les Cerises du Voisin”, tradiciona­l canção francesa. Neste momento, exclama certa incredulid­ade. “Olha minha educação, Santa Rita e Paris.”

Santa Rita é na verdade Cássia, no sul de Minas Gerais —Santa Rita de Cássia era o antigo nome da cidade. A também mineira Poços de Caldas, para onde se mudou mais tarde, é a terra de suas memórias mais duradouras.

Aliás, filmagens da casa que a família mantinha em Poços e fotos antigas se sucedem em meio às conversas do avô com a neta.

Ele conta a ela sobre um episódio ocorrido poucos anos depois de se mudar para São Paulo. Marcou uma ida ao cinema com uma moça e, na última hora, desistiu. “Que cafajeste eu sou”, afirma.

Antonio Candido, então “no fundo do poço”, resolveu se aconselhar com uma amiga, Gilda de Mello e Souza, com quem se casou no ano seguinte. Eles depois viveram juntos por seis décadas.

“Anotações Finais” e “O Avô na Sala de Estar” se aproximam do retratado de modos distintos. O primeiro é mais circunspec­to e profundo, e o segundo, mais solar. Os filmes se encontram, no entanto, ao registrar o amor desmedido de Candido por Mello e Souza.

No novo filme, é curiosa a passagem em que o crítico dá como exemplo o capelete do almoço para demonstrar como a mulher tinha o melhor texto da família.

Em suma, o documentár­io é uma síntese do olhar afetivo e curioso de uma neta, uma entre tantas possibilid­ades de abordagem no caso de uma personalid­ade rara como a dele. Houve o Antonio Candido das salas de aula, da literatura brasileira, da erudição francesa, da sociologia —que venham outros filmes.

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Divulgação O crítico literário Antonio Candido em cena do filme ‘O Avô na Sala de Estar’

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