Jornal do Commercio

A guerra deflagrada pelas operadoras de saúde dentro do judiciário

É preciso romper o ciclo de impunidade. O Judiciário não pode ser refém da desobediên­cia deliberada

- MARÍLIA CARVALHEIR­A Marília Carvalheir­a, advogada especialis­ta em Direito da Saúde Suplementa­r Health · Adult Swim · Mary J. Blige

Imagine um paciente que recebe uma liminar garantindo um medicament­o vital. Ele comemora. Mas os dias passam, semanas, meses — e o medicament­o não vem. O plano de saúde ignora. A advogada peticiona. O juiz intima. O ciclo se repete. E o que deveria ser um processo para garantir dignidade transforma- se em um campo de batalha jurídico, desgastant­e para todos — menos para quem descumpre impunement­e.

Esse é o cenário atual das demandas contra planos de saúde no Judiciário. O sistema de Justiça, por definição, atua para resolver conflitos e garantir direitos, mas não é isso que vem acontecend­o.

Muito se noticia sobre o aumento da judicializ­ação da saúde, mas pouco se fala sobre as causas reais desse fenômeno. As operadoras de planos de saúde criaram uma narrativa — amplamente absorvida pela população — de que esse aumento poderia quebra-las. Mas isso não correspond­e à realidade.

Em 2024, os planos de saúde registrara­m um lucro líquido de R$ 11,1 bilhões. Apenas no primeiro trimestre de 2025, o lucro já alcançou R$ 7,1 bilhões — 64% do total do ano anterior. Se mantido esse ritmo, a projeção é de um lucro líquido de R$ 28,4 bilhões ao final de 2025, um cresciment­o de 155% em relação ao ano anterior.

É fato que os planos de saúde são empresas privadas e, como tal, visam ao lucro — algo legítimo dentro das regras de mercado. No entanto, esse lucro não pode ser construído sobre práticas abusivas, desrespeit­o à legislação do setor e violação sistemátic­a de direitos dos beneficiár­ios.

Tanto é assim que os próprios gastos das operadoras com o Judiciário decorrem exclusivam­ente de sua conduta irregular. Ao agir contra a legislação e as normas regulatóri­as, as operadoras empurram os beneficiár­ios à busca desesperad­a por seus direitos na Justiça.

O problema, porém, não se limita ao acesso ao Judiciário. Há um agravante ainda mais cruel: o descumprim­ento reiterado de decisões judiciais. Operadoras passam dias, meses — até anos — ignorando ordens liminares, sentenças e acórdãos, como se tais determinaç­ões não tivessem qualquer valor.

Essa prática tem nome: litigância predatória reversa. Em sessão da Corte Especial do STJ, em 13/03/2025, o ministro Herman Benjamin fez um importante alerta sobre o tema:

“Trago um obiter dictum acerca da litigância predatória reversa [...] Grandes litigantes, empresas normalment­e, recusam- se a cumprir decisões judiciais, súmulas, repetitivo­s, texto expresso de lei. [...] Estamos muitas vezes falando de 200 mil, 500 mil litígios provocados por um comportame­nto absolutame­nte predatório por parte dos agentes econômicos ou do próprio Estado.”

Os processos, em vez de garantirem o direito de forma célere, tornam-se verdadeiro­s labirintos processuai­s. A demanda se eterniza em torno dos inúmeros descumprim­entos, e, por vezes, o paciente morre antes de receber o tratamento determinad­o judicialme­nte. Em um caso concreto, por exemplo, um beneficiár­io com câncer, cuja cirurgia foi garantida por liminar, aguarda há mais de 60 dias o cumpriment­o da decisão, apesar de sucessivas petições informando o descumprim­ento.

Em diversos casos, é necessário abrir uma nova ação apenas para forçar o cumpriment­o da decisão original, a fim de não travar ainda mais o processo principal. As operadoras se valem de todos os expediente­s possíveis para postergar e inviabiliz­ar o cumpriment­o das ordens judiciais, colocando em risco direto a vida dos jurisdicio­nados.

É preciso romper o ciclo de impunidade. O Judiciário não pode ser refém da desobediên­cia deliberada, tampouco a advocacia pode ser submetida à insalubrid­ade institucio­nal de lutar incessante­mente pelo cumpriment­o do óbvio: o respeito à lei e às decisões judiciais. O Estado de Direito exige mais — e a sociedade também.

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ILUSTRAÇÃO GERADA POR IA O sistema de Justiça, por definição, atua para resolver conflitos e garantir direitos, mas não é isso que vem acontecend­o

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