A força do Mundo que está a mudar o Interior
O coração do país tem cada vez mais adeptos e a procura por qualidade de vida cresce nos lugares onde há tempo para respirar. Salgueiro do Campo e Fundão deixaram de ser territórios de partida e tornaram-se pontos de chegada
Em Portugal, vivem 1 543 607 cidadãos estrangeiros. De norte a sul, a imigração ganha relevo, quer no reforço da mão de obra, quer no repovoamento de territórios outrora relegados. O Litoral continua a concentrar a maior fatia do fluxo migratório, mas, nos últimos anos, a serenidade do Interior e o custo de vida acessível atraem cada vez mais pessoas.
O distrito de Castelo Branco registou um aumento exponencial de estrangeiros. Segundo dados da Agência para a Integração, Migrações e Asilo ( AIMA), os imigrantes na região passaram de 3072 para 18 365, correspondendo a um aumento de quase 500% entre 2014 e 2024. Procuram uma nova vida. Paz, sossego e aquilo que só o Interior, ancorado na natureza, pode oferecer.
2 António José recebe de braços abertos quem chega
Em Salgueiro do Campo, uma aldeia do município de Castelo Branco, a imigração já dá frutos. Onde antes havia casas fechadas e ruas vazias, há agora novas vozes e muitas delas não soam em português. “A partir do momento que chegou o primeiro [estrangeiro], isto começou a intensificar-se”, afirma António José Perquilhas. O movimento, explica o presidente da Junta de Freguesia, foi crescendo de forma quase orgânica: quem chegava gostava e hoje são mais de 200 os estrangeiros que vivem na freguesia com 775 habitantes. “Temos piscina, restaurante, farmácia, posto médico, escola primária e posto de abastecimento. Estamos muito bem servidos”, garante.
RECOMEÇO DE VIDA
Quando Marleen H., de 39 anos, chegou a Portugal tinha apenas uma fantasia na cabeça e 7500 euros. O nascimento de Lenny em 2018 mudou a forma como a alemã encarava a vida. “Cada vez que saía de casa para trabalhar sentia que vendia o meu tempo, tempo precioso que gostaria de passar com o meu filho. E então quis mudar para uma vida mais simples”, explica a tradutora literária.
Trocou Osnabruque, no Noroeste da Alemanha, pelo Interior em abril de 2021 e desde então a vida faz-se noutro ritmo. Faz trabalho remoto e dedica-se à agricultura. O filho, com sete anos, é um dos 40 meninos que frequentam a escola primária de Salgueiro do Campo, onde mais de metade são filhos de estrangeiros e sem eles o estabelecimento estaria encerrado.
Consciente dos benefícios, quem é da terra não faz cara feia a quem chega. “A população é bastante acolhedora” e os estrangeiros retribuem como podem. Graças a eles, “faz-se mais movimento” nos restaurantes e mercearias, explica o presidente da Junta. Foi à boleia desta simpatia que Petra Diepstra começou a dar aulas de ioga no Centro Cultural e Recreativo. “As pessoas têm curiosidade e aparecem. E, apesar de ter mais estrangeiros nas aulas, também tenho várias alunas portuguesas.