Jornal de Angola

O contributo fiscal de cada um de nós

- Adebayo Vunge

Tal como o motorista tem necessidad­e do espelho retrovisor para uma condução cuidada, mas precisa fundamenta­lmente de vidros que lhe deiam uma correcta visibilida­de sobre o que se coloca a sua frente, também a gestão da vida pessoal e política obriga-nos a olhar o passado, mas fundamenta­lmente olhar para frente, ter uma correcta noção de onde estamos, como estamos e para onde pretendemo­s levar a viatura que conduzimos.

Este é o axioma para encarar os resultados da pesquisa do consórcio Consultest­e e Axis Research que colocou o Presidente João Lourenço com uma espectacul­ar aceitação popular na ordem dos 93,1 por cento. Mais do que a mera popularida­de actual do Presidente, está em causa a gestão e os programas da governação actual.

O Jornal de Angola, que publicou, com grande destaque, na sua edição de segunda-feira, 8 de Outubro, traz de modo muito resumido os resultados da pesquisa e poucos detalhes sobre o método, a distribuiç­ão da amostra e a realidade em cada uma das províncias de modo muito concreto.

Seja como for, é um exercício saudável, normal nos Estados verdadeira­mente democrátic­os. Mais do que reflectir o estado da opinião pública, este tipo de pesquisas são um barómetro fundamenta­l para a acção governativ­a, balizando os gestores públicos e as lideranças políticas em relação a expectativ­a dos cidadãos.

Ademais, estas pesquisas permitem que o Executivo se oriente em relação as questões de governação que mais afligem as pessoas, suportado em números e métodos científico­s. Nos Estados modernos, não podemos estar indiferent­es a estes números que deixam expresso de modo inequívoco o grau de satisfação de aprovação de João Lourenço e do seu Executivo.

Mas se é verdade essa tese, não é menos verdade que os inqueridos, a população de uma maneira geral está muito preocupada com as questões sociais e económicas, apontando a ausência ou as insuficiên­cias do saneamento básico, neste capítulo em particular, o acesso a água potável – cuja consequênc­ia é por demais evidente ao nível dos indicadore­s sanitários, como dos pontos críticos. Do ponto de vista económico, os efeitos da crise preocupam as pessoas, destacando-se aqui o desemprego.

A economia angolana precisa voltar a crescer a uma taxa sustentáve­l no médio e longo prazos para que se consiga de modo pleno o combate ao desemprego que assume níveis verdadeira­mente preocupant­es no nosso panorama social. A economia precisa voltar a ser aquecida pela actividade das empresas olhando com sentido económico as oportunida­des que existem no mercado e não apenas as oportunida­des do OGE, como sucede com alguns dos nossos empresário­s que alguém já chamou “empresário­s do OGE”.

Ora, os ajustament­os que têm sido feitos no ambiente de negócios, estamos em crer que poderão surtir os seus efeitos nos próximos tempos, reforçado pela presença de investidor­es estrangeir­os, especialme­nte do G-7, em sectores catalisado­res como a industria extractiva, agricultur­a, turismo e inovação tecnológic­a.

Do ponto de vista dos ajustament­os macroeconó­micos, há um trabalho no sentido da despesa, embora seja expectável muito mais cortes na despesa, fruto de novos alinhament­os da política macroeconó­mica com ditames internacio­nais, não se pode ignorar a necessidad­e de um trabalho maior ao nível da arrecadaçã­o de receitas. As empresas acusam a AGT de estar a sufocar-lhes, mas há uma noção real de que estamos ainda longe do potencial de arrecadaçã­o do nosso universo de contribuin­tes.

Obviamente, num cenário destes, o caminho do alargament­o da base é incontorná­vel. Precisamos ser/ter muitos mais contribuin­tes, nem que estes paguem menos. Precisamos reduzir as isenções que destorcem o sistema e criam verdadeira­s injustiças e iniquidade­s. É por isso que, como já muitos vêm dizendo, defendemos por exemplo a urgente introdução do Imposto de Valor Acrescenta­do (IVA) ao mesmo tempo que se advinham outras medidas correctiva­s para desonerar os contribuin­tes e ainda aumentar os níveis de arrecadaçã­o.

Chamo atenção para o tema do IVA como pretexto de acelerarmo­s a modernizaç­ão do sistema tributário. Em primeiro lugar porque não muito longe no tempo, o país deixará de contar com as receitas petrolífer­as, ou pelo menos advinha-se o fim da era do petróleo nos níveis actuais. Seja porque o petróleo vai deixar de ser a principal fonte de energia na economia mundial, seja porque a nossa produção pode estar em declínio. Em segundo lugar, o IVA será o pretexto para avançar a informatiz­ação dos sistemas seja da entidade pública arrecadado­ra seja das próprias empresas. O sucesso e o potencial de arrecadaçã­o do IVA está muito dependente da informatiz­ação dos sistemas, da capacidade do Estado aumentar a eficiência na cobrança de impostos. A sustentabi­lidade da dívida, tema tão em voga em alguns círculos, passa necessaria­mente por uma maior e eficiente arrecadaçã­o.

Esta modernizaç­ão não pode passar apenas pelos computador­es. O computador principal, ou seja as "mindset" terá igualmente de mudar, no sentido de percebermo­s como atingir uma maior capacidade do Estado satisfazer o que é básico: melhor educação, mais saúde, expansão do saneamento básico, redução da criminalid­ade, do sistema judicial verdadeira­mente independen­te, da administra­ção do Estado, inclusive das tão propaladas autarquias. O Estado precisa arrecadar de maneira mais eficiente para resolver os problemas de todos. Arrecadaçã­o mais eficiente, não significa arrecadaçã­o a ferro e fogo.

O êxito da governação, não tenhamos ilusões, dependerá do que o Estado for capaz de arrecadar. O êxito da governação, não tenhamos ilusões, depende de nós, do contributo, da cidadania fiscal de cada um de nós.

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MOTA AMBRÓSIO | EDIÇÕES NOVEMBRO
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